Bia Soull prova que putaria também pode ser discurso político em “Pornografia Auditiva”
Com Pornografia Auditiva, artista mistura prazer, identidade e crítica social em um dos discos mais comentados de 2026
Existe algo acontecendo no funk paulista. E talvez poucas artistas consigam traduzir isso tão bem quanto Bia Soull. Com o lançamento de Pornografia Auditiva, seu primeiro álbum de estúdio pela Warner Music Brasil, a cantora entrega um projeto intenso, provocador e extremamente consciente da própria estética.
O disco já circula entre os trabalhos mais comentados do ano. Além disso, posiciona Bia como uma das vozes mais interessantes da nova geração do funk experimental brasileiro.
Um álbum que transforma desejo em discurso
Desde os primeiros segundos de Pornografia Auditiva, fica claro que o projeto não pretende seguir caminhos seguros. Pelo contrário. O álbum mergulha sem medo em erotismo explícito, política sexual e experiências afetivas de uma mulher negra e bissexual. Ao longo das faixas, Bia Soull usa o sexo como linguagem principal. Porém, o disco não se limita ao choque ou à provocação superficial. Cada música constrói narrativas sobre autonomia, prazer feminino e liberdade de expressão.
A abertura com “Preliminares” já indica o clima do álbum. A faixa funciona como um convite para uma experiência progressiva, sensual e quase cinematográfica. Depois disso, o disco cresce em intensidade até chegar em “Coração Puro”, uma das músicas mais confessionais do projeto.
No meio da experiência, Pornografia Auditiva revela sua principal força: transformar o funk em ferramenta de discurso artístico e emocional.
Produção minimalista cria atmosfera hipnótica
O álbum reúne produtores importantes da cena underground paulista. Entre eles estão MU540, D.Silvestre, DJ Th4ys, Paulo DK e Mello Santana. O resultado sonoro aposta em bases minimalistas, ambientes espaciais e batidas que criam tensão constante. Essa construção lembra projetos experimentais do funk eletrônico contemporâneo, mas mantém identidade própria.
A voz de Bia aparece quase sussurrada em vários momentos. E justamente isso aumenta a sensação de proximidade com quem escuta. Enquanto muitos projetos atuais apostam apenas em refrões virais, Bia Soull escolhe desenvolver atmosfera, narrativa e conceito visual dentro das músicas.
Parcerias fortalecem o impacto do disco
As colaborações também ajudam a construir a personalidade do álbum. “Melaço”, parceria com D.Silvestre, mistura sensualidade e agressividade em doses equilibradas. Já “Putinho Piru Rodado”, com NandaTsunami, surge como uma das faixas mais viciantes do projeto.
Outro destaque aparece em “Boombap Puto”, ao lado de Matheus Coringa. A música adiciona humor ácido ao repertório e quebra a densidade emocional presente em outras faixas. Além disso, “Sinergia” e “Óleo de Coco” já aparecem entre as favoritas do público nas redes sociais. As duas possuem estrutura perfeita para dominar pistas e bailes alternativos.
Pornografia Auditiva transforma prazer em posicionamento
Em tempos de conservadorismo crescente, principalmente dentro do próprio universo do funk, Pornografia Auditiva funciona quase como manifesto.
Bia Soull ocupa espaços historicamente dominados por discursos masculinos e cria novas possibilidades para mulheres dentro da música urbana brasileira. Ela fala sobre desejo sem pedir licença. E justamente por isso o álbum ganha força política. O disco não tenta agradar todo mundo. Alguns ouvintes vão se divertir. Outros vão se incomodar. Mas dificilmente alguém termina a experiência sem ter uma opinião formada.
E talvez esse seja o maior acerto de Bia Soull: transformar desconforto, prazer e identidade em combustível artístico dentro de um dos projetos mais ousados do funk nacional em 2026.




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